O Tempo: Mulheres têm a iniciativa do divórcio em cerca de 70% dos casos

Publicado em: 06/12/2021
Estatísticas indicam um recorde: nunca se separou tanto e tão cedo no Brasil
 
No Brasil, a duração média dos casamentos tem despencado ao mesmo tempo em que o número de divórcios vem aumentando. Para se ter uma ideia, o índice de separações no país subiu 24% na comparação entre o primeiro semestre de 2021 e o primeiro de 2020. Segundo informações do Colégio Notarial do Brasil, trata-se de um recorde. E, de acordo com levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os casamentos têm colapsado cada vez mais cedo. Hoje, a maioria não chega aos 13 anos. Antes, a duração média era de 17 anos.
 
Por trás desses recordes, há dados que merecem especial atenção. É notável, por exemplo, que a ampliação do volume de rompimentos pode ter relação com o período de isolamento social provocado pela pandemia da Covid-19, quando o convívio intenso em virtude da quarentena pode ter sobrecarregado física e emocionalmente as famílias brasileiras. Também é curioso que, tratando-se de uniões heterossexuais, são as mulheres que tomam a iniciativa de pedir a separação cerca de 70% das vezes.
 
A advogada Débora Guelman, que atua na área de família e sucessões, observa que a motivação mais frequente para o divórcio é a tripla jornada. “Essas mulheres trabalham, cuidam dos filhos e da casa. Então, elas não aguentam relacionamentos machistas”, disse em entrevista à rádio Nacional. 
 
A psicóloga clínica Leni de Oliveira, coordenadora do departamento de relacionamento e casal do Núcleo de Psicologia Seu Lugar, acredita que, de fato, a sobrecarga feminina pode ser a razão para que muitos casamentos acabem. “Enquanto a sociedade enfrentou debates e viu pautas de comportamento avançarem, o matrimônio, como instituição e modelo, mudou pouco. Para a mulher, esse choque fica evidente. Ela se casa com um ideal de felicidade, mas acaba sendo confrontada com uma série de questões machistas. Ela vai se sentir responsável pelas tarefas domésticas, vai ter uma jornada sem fim, e isso vai desgastando a relação. Afinal, essa mulher vem de um espaço que já discute esses problemas, e, para ela, não será tão fácil se curvar a uma lógica ultrapassada”, avalia.
 
Leni lembra que uma maior independência financeira é outro fator que ajuda a entender o fenômeno. “Se antes muitas tinham que se submeter ao homem para ter sustento, isso já não acontece tão frequentemente hoje”, observa.
 
De fato, o empoderamento financeiro é visto como instrumento para a superação de relações abusivas e violentas. Pesquisas evidenciam haver uma relação negativa entre o Bolsa Família, programa de transferência de renda que repassava valores prioritariamente para as mães de família, e a violência doméstica, que resulta em óbito de mulheres. “Um efeito consistente com estudos que afirmam que os programas de transferência condicional de renda promovem indiretamente um empoderamento do sexo feminino e uma redução nos níveis de violência doméstica”, indica o artigo “O impacto do programa Bolsa Família sobre a violência contra a mulher”, publicado em 2016 e disponível no repositório virtual da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
 
Fuga e comodismo
 
“Também podemos pensar esse fenômeno pelo viés da sexualidade. Quando o homem pede o divórcio, a principal motivação é a infidelidade feminina. Curiosamente, isso não acontece quando é a mulher que toma a iniciativa da separação. Isso ocorre porque a traição masculina sempre foi mais aceita socialmente”, situa Leni de Oliveira, acrescentando que muitos homens fazem distinção entre a relação sexual e a relação romântica.
 
Mônica Torres, psicóloga e terapeuta de casais, segue na mesma toada. “Se o sexo não é satisfatório no casamento, é mais aceitável que eles busquem satisfação em relações extraconjugais. Esse benefício, no entanto, é vetado para elas”, avalia, sinalizando que, também por isso, os homens tendem a não tomar a iniciativa do divórcio. “É mais um componente que os leva a se acomodarem, permanecendo em uma união mesmo que ela esteja ruim”, sinaliza.
 
A passividade masculina tem outras explicações. “O sistema patriarcal poupa os homens dos problemas domésticos. Por isso, desde criança, os meninos não são estimulados a enfrentar desafios dentro de casa. É como se, no lar, coubesse à mulher tomar decisões e solucionar impasses. Essa mesma lógica se reflete no âmbito conjugal”, salienta a terapeuta. “Além disso, há o temor deles de que o fim do casamento seja lido socialmente como um fracasso. E, para o homem, é especialmente doloroso enfrentar esse ‘fracasso’, uma vez que eles são estimulados a serem competitivos, a se darem bem e ter sucesso”, comenta.
 
Tanto Leni quanto Mônica destacam que, para explicar o porquê de elas pedirem a separação na maioria das vezes, é importante lembrar que o casamento não costuma ter o mesmo significado para homens e mulheres. “Eles se casam em busca de estabilidade e por ser algo que é esperado, como se fosse um próximo passo. Já elas se unem aos parceiros perseguindo ideais de felicidade e de complementariedade. Então, se o matrimônio está ruim, o homem vai levando, porque, para ele, é mais importante garantir essa união estável”, diz a primeira. “Mas, para a mulher, é melhor sair da relação que já não é capaz de fazê-la feliz”, conclui a última.
 
Tipos de divórcio
 
No Brasil há dois tipos de divórcios. No mais simples, os casais podem se separar de forma relativamente rápida, pelo cartório, amigavelmente. Já o divórcio judicial ou litigioso é realizado diante de um juiz e envolve questões mais complexas, como falta de consenso do casal, partilha de bens, pensão e guarda de filhos.
 
“Divorciar-se não é um processo rápido, pelo contrário. É um processo demorado e muito doloroso. Principalmente no aspecto emocional e no financeiro. Então, essa decisão de se divorciar envolve diversos fatores, que são impedimentos até para o indivíduo efetivar essa separação. Normalmente, a pessoa pensa por um ano e meio, até dois anos, antes de se efetivar o pedido”, explica Débora Guelman. (AB)

Fonte: O Tempo